Metade do caminho feito, metade por fazer

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Dia 3 : Palas de Rei

Ainda o sol nem tinha levantado e nós já estávamos acordados para partir de Palas de Rei. O pequeno almoço tomado no albergue fez com que não nos preocupássemos com a comida durante as horas seguintes. San Marcos é um alojamento novo, prático, muito limpo, com espaço para lavar a roupa (em máquinas ou num tanque) e para cozinhar providenciando panelas, talheres e pratos. Quem não quiser estar com trabalho ou não trouxer comida pode tomar o pequeno-almoço a um custo inferior ao dos cafés.


Com o estômago reconfortado e as dores apaziguadas rumámos até ao próximo destino, Arzuá, a 29 km de distância. O terceiro dia era o mais comprido, mas também o mais bonito. Cruzámos campos e montes, acompanhámos o sol, passámos por cima de pontes, ultrapassamos o marco dos 50 km e conhecemos o Pepo, um labrador de mochila "às costas" que acompanhava o dono na sua jornada peregrina. Os caminhos rurais intercalados por travessias medievais levaram-nos até Melide. Este pequeno município que vive da agropecuária é conhecido por confeccionar bom polvo, uma especialidade que o meu namorado não aprecia e por isso optámos seguir a caminhada desfrutando do cenário bucólico.



Neste dia encontrámos também um casal de meia idade, ela brasileira e ele espanhol, a fazer a sua 31º Caminho de Santiago. Entre os vários pontos de partida constavam Roma, sul de Espanha, sul de Portugal ou o norte de França. Tinham tantas histórias como voltas ao sol, como aquela vez em que dormiram numa corte e tiveram de fugir do dono da quinta. Ou uma outra em que pernoitaram num campo de trigo. O jeito animado com que reavivavam memórias era cativante e algo surpreendente, tão surpreendente como ela dizer "Vão ficar em Arzuá? Isso é já ali, são apenas 10 km". Apenas? São mais duas horas de subidas íngremes e descidas desafiantes em que o peso do corpo, juntamente com o da mala, se acumula nos joelhos.

"O melhor é abrandarmos o ritmo", sugere o marido ofegante. Ela finge não ouvir e continua em marcha como se tratasse de uma atleta profissional. Procurámos acompanhar o passo e, talvez por estar embalada nas histórias, esqueço momentaneamente as dores. Aquilo estava a resultar. Ele volta a insistir, só mais uma vez. À terceira cede quando entra numa capela erigida a Santiago. Despedimo-nos levando connosco o seu exemplo e força. Somos uns meninos ao lado destas forças da natureza, mas se eles conseguiam nós também iríamos conseguir.

As dores voltaram e o verdadeiro desafio começou nesse instante. Se por um lado caminhávamos juntos, por outro sentia que não o podia atrasar. Nasce a frustração e rapidamente os sorrisos transformaram-se em momentos de silêncio. Abrando, paro, recomeço a um ritmo descoordenado e impeço-o de seguir normalmente. O silêncio torna-se incómodo. Não quero fraquejar, ele não quer deixar-me para trás. Respiro fundo para manter a calma. Lá ao fundo começo a ver uma casa à margem de um rio. É um albergue! "Ficamos neste, amanhã recuperámos os km's que não fizemos. Pode ser?". Ele concorda admirado com a beleza do local. Mostrámos as credenciais, pagámos o preço de duas camas, tomamos banho e pela relva ficámos a recuperar.


Dia 3: Palas de Rei a Arzuá (29 km)
Onde ficámos: Albergue de Ribadiso de Baixo (Arzuá)

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