Entrar no espírito
Para um peregrino o dia começa invariavelmente cedo. Entre as 6 e as 7h da manhã, o despertador mental acorda-nos para lembrar que há um desafio pela frente. Vestimo-nos, tomamos o pequeno-almoço e seguimos caminho. Pequeno parênteses: em Espanha é difícil comer bem, seja em que refeição for pelo uso abusivo dos fritos. Em sua defesa, os espanhóis alegaram que "esta no es la comida típica de España. Este es el alimento del Camiño, por lo que tiene que ser más calórico." Entre bocadillos, tortilha, sandes de jámon e café con leche, lá nos conseguimos safar, mas como tivemos saudades da nossa comida portuguesa! Os menús de peregrino rondam os 9€ a 10€ por pessoa e quem quiser poupar pelo caminho deverá comprar comida em supermercados.
Saímos da pensão para a caminhada do segundo dia. Ao passarmos pela igreja de Portomarín avistámos os primeiros peregrinos e seguimos-lhe o rasto. O dia foi bem diferente do anterior com os caminhos a encherem-se de gente. Tanta gente! O idioma mais ouvido era, sem dúvida, o espanhol que fazia frente ao francês, italiano, alemão e até chinês. Entre uma coca-cola e uma sandes de jámon encontrámos o único grupo português. "Olá casal", disseram-nos. Trocámos breves palavras antes de partirem novamente com um ritmo que não conseguimos acompanhar.
Para mim, esta foi a etapa mais chata pelas constantes subidas e descidas, sobretudo em estrada. Sem dúvida que o monte e a paisagem natural me acalma e torna o caminho mais proveitoso, mas à falta de opção seguimos pelo alcatrão e com a banda sonora dos carros que por lá passavam. A chuva também apareceu, leve e miudinha. Ao fim de meia hora a levar com água na cara só pensava nas pessoas que carregavam quilómetros nas pernas, desgastadas pelo cansaço físico ou extenuadas pela dor. Se por um lado a chuva me irritava, por outro tinha-me tornado mais tolerante e compreensiva para com os peregrinos.
Em direção a Palas de Rei encontrámos, por fim, o nosso ritmo. Se no dia 1 há a pressa de chegar, no dia 2 escuta-se o corpo e respeita-se o caminho. São 25km onde surgem as primeiras dores e, no meu caso, acompanhadas de sangue. As bolhas foram inofensivas, já as feridas nos dedos dos pés obrigaram a uma mudança de meias. Siga! Não há em que pensar. O caminho faz-se caminhando... mesmo que seja com um andar diferente do normal.
As dores musculares fizeram sentir-se no final do segundo dia, razão que nos levou até à farmácia mais próxima em Palas de Rei. Se não souberem o que pedir não tenham receio de perguntar aos farmacêuticos de serviço, acostumados a reconhecer peregrinos e a aconselhar as melhores práticas. No nosso caso deram-nos Fisiocrem, uma pomada que "aquecia" a zona muscular para aliviar as dores. A melhor aquisição em todo o caminho! De manhã, com o corpo ainda relaxado após algumas horas de sono, passávamos a pomada nas pernas e só depois é que nos vestíamos. Garanto-vos que faz a diferença e não se é menos peregrino só porque usarmos uma pomada para as dores.
Dia 2: Portomarín a Palas de Rei (24 km)
Onde ficámos: Albergue San Marcos, Palas de Rei







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