O dia D(or)
Adormecer numa camarata pode ser um exercício de paciência, mesmo quando se está perto de um rio e a paisagem acalma. Um pouco depois das nove da noite, quando o corpo pede descanso e a alma começa a preparar-se para o dia seguinte, surge um senhor com um isolamento térmico que faz lembrar as folhas de alumínio usadas habitualmente na cozinha. Mexe para um lado, mexe para o outro, arranja novamente, ajeita só mais um pouco, revira, molda ao corpo, puxa para cima, puxa para baixo... E com tudo isto, toda a camarata acorda e ouvem-se algumas gargalhadas. A verdade é que o senhor estava na cama desde as seis da tarde, talvez extenuado pelo cansaço, e nessa altura poucos peregrinos respeitaram o silêncio que o momento exigia. À noite, de propósito ou não, deu-se o inverso. Passados trinta minutos, o ambiente acalmou e aos poucos todos adormeceram.
Dormir ao lado de 50 pessoas tem a desvantagem de se acordar com os madrugadores. Os primeiros peregrinos a porem-se em pé acabam, invariavelmente, por despertar os restantes. Muitos deles não fazem por mal, mas ao vestirem-se e ao arrumar a mala surge algum barulho. É inevitável, pelo que aos primeiros barulhos nós levantávamo-nos, lavávamos os dentes, vestíamo-nos, arrumávamos as mochilas e seguíamos caminho. O pequeno-almoço ficava para a primeira paragem.
A quarta etapa que nos levaria de Arzuá a Ruá era a mais curta, com 19 km a separar uma terra da outra, sem grandes subidas e paisagens de enorme beleza. Tudo previa correr bem não fosse o meu joelho a queixar-se do esforço. Depois de muita teimosia da minha parte aceitei comprar um bastão. Estava reticente e sentia que aquele pau não me traria qualquer benefício, apenas peso e mais uma coisa para carregar. A verdade é que um ponto de apoio extra reduz a pressão no joelho dorido. Rendi-me às evidências e fui seguindo como podia recorrendo também ao gel.
Esta foi sem dúvida a etapa mais complicada para mim. Foi a prova dura que nos pôs em teste enquanto casal. Quis chorar, quis parar, quis mandá-lo calar e obrigá-lo a continuar sem mim. Ele estava em boas condições e conseguia fazer o caminho num ritmo melhor, eu estava cada vez com mais dores e sem paciência para frases como "temos de seguir", "não podes parar tantas vezes", "estás a perder ritmo". Tudo parecia doer ainda mais depois daquelas palavras. Estava irritada e os nervos começavam a tomar conta de mim. Lembro-me de fazer pequenas metas para me motivar. "É só mais um quilómetro". Olhava para as pessoas ao nosso lado bem dispostas, sempre a andar e eu não conseguia acompanhá-las. A única solução era transformar a irritação em força e provar-lhe que eu ia conseguir, mesmo que naquele momento nem conseguisse olhar para a cara dele. À medida que nos fomos aproximando da cidade a comunicação mudou de tom. "Estamos quase lá", "tu consegues", "isto já não é nada".
Só voltamos a falar do assunto, já no albergue, quando estávamos a descansar. Sabíamos que nunca deixaríamos um de nós para trás, só não sabíamos como reagiríamos num momento de stress.
(Eu) - Foste duro comigo, hoje.
(Ele) - Eu sei, mas não podia passar a mão pela cabeça à espera que reagisses sozinha. Fiz com que te irritasses comigo e quisesses andar.
Às vezes o caminho também é isto, é descobrirmo-nos, saber como reagimos aos estímulos externos e fazer o inconveniente para não deixar ninguém para trás.
Nesta dia comecei a escrever a nossa aventura rumo a Santiago.
Dia 4: Arzuá a Ruá (19 km)
Onde ficámos: Albergue Porta de Santiago (Pedrouzo - Arca - O Pino)





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