Até Santi!
Ainda era de madrugada quando o grupo de italianos que dormia ao nosso lado no albergue se levantou para meter os pés na estrada. Nesse dia quase todos acordaram mais cedo do que o habitual para chegar à Santiago antes das 11h, hora a que se realiza a missa de benção aos peregrinos. Embora não fosse nosso objetivo, entramos na maré de lanterna na mão e passo acelerado atrás das setas amarelas que nos conduziriam até à catedral.
A nostalgia sentida no ar transmitia-se por sorrisos ou olhares cúmplices. Em cada um de nós existia a emoção de chegar ao fim e uma gratidão profunda por saber que, para sermos felizes, precisamos de muito pouco. Caminhamos de igual maneira, com maior ou menor preparação, com equipamento mais avançado ou com as roupas que estavam esquecidas no armário, mas sempre e só com o essencial. O desprendimento de bens materiais é ainda maior quando nos cruzamos com pessoas de idade avançada que nos sorriem no meio das dores. A conquista pessoal supera qualquer coisa.
Saímos, então, do albergue em grupo e com as lanternas orientadas na mesma direcção para conseguirmos ver melhor o caminho. Para além da chegada, o mais fantástico deste percurso foi a passagem pelo aeroporto de Santiago de Compostela com os aviões a aterrarem bem pertinho de nós.
O ritual de todas as manhãs, uma sandes de jamón com coca-cola, foi cumprido num parque de campismo perto do Monte do Gozo onde me esqueci do bastão. No momento em que me apercebi, deixei a mochila no chão ao lado do meu namorado e corri na direcção contrária à dos peregrinos para ir buscá-lo. A expressão deles de surpresa era magnífica, ao mesmo tempo que me aconselhavam a inverter o sentido da corrida. Sorri-lhes e gritei "Buen Camiño!"
Supostamente, o Monte do Gozo dá-nos a primeira imagem panorâmica sobre Santiago de Compostela. Eu confesso que não consegui ver grande coisa, por isso acertámos o passo e percorremos os últimos cinco quilómetros até à catedral. A chegada é sempre o momento de maior ansiedade e, no meu caso, arrancou-me uma lágrima sem eu contar. Para não perdermos pitada gravámos os últimos minutos das ruas e ruelas da cidade, da chegada e do abraço. Naquele momento tivemos a certeza que foi a primeira, mas não a última vez que percorremos o Caminho.
O meu namorado olhou para mim e disse: voltamos? Sim, voltamos... Mas da próxima para fazer o caminho inteiro de Saint Jean Piet de Port até Finisterra. Ficou prometido.




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